por uma vida menos ordinária
eu também vou reclamar:


"Cuidado com furtos no interior do veículo."



***Dê prefêrencia à pessoas idosas, gestantes e deficientes.

Porra...me fudi!
Tirei meu título de eleitor semana passada...
Tirei 8 fotos 3X4 que ficaram BONITAS (acredite isso é raro!)
É a terceira vez que vou ter que fazer RG...
Meu CPF....tinha decorado estes dias...
E eis que eu indo pra minha entrevista de emprego...
No biarticulado da capital social...
ao som de "Cuidado com furtos no interior do veículo"
Fui roubada...
E daí?
Isso acontece todo dia...
É...coisas da vida...
Da outra vez um carteiro encontrou meus documentos e coincidentemente
entregou cartas aqui em casa, lembrou do meu sobrenome
e me falou que viu meus documentos e tals..só que tinha ido tudo pra São Paulo meu...
É muita ironia...
Na entrevista, pensei sim em falar " Ione, eu fui roubada no ônibus estou nervosa, então se eu tropeçar no espanhol não liga não tá?"
Mas nem fiz...e agora José?
E agora FODEU!
Vou fazer B.O nessa polícia de merda...
Vou demorar 50 dias pra ter tudo de novo....e mais 50 vidas pra tirar fotos 3X4 decentes...
Ladrão Filho da Puta!
Não tinha dinheiro! Tinha cartão, de conta que não existe!
Tinha título de eleitor pra votar em gente que eu nunca votei(e nem votaria)!
Já sei!
Na próxima carteira vou colocar um bilhete assim:
"Se fudeu Ladrão idiota! Não tenho dinheiro!! Se fodeu!! Se fodeu!!"



Mas não é tudo...

Tomara que todos as gestantes, idosos e deficientes um dia olhem bem com aquela carinha de "Nos dê o seu lugar que é de meu direito" pra ele e ele se sinta tão mal mas tão mal que nunca mais entre num biarticulado...
Que ao embarcar as pessoas que desembarcam pisoteiem ele, que todas as portas que ele esteja sejam a porta 3, aquela mesma, a porta mais infernal, lotada e impossível que existe, e que o ser iluminado que estiver com meus documentos ligue pra um dos meus amigos que eu tinha o telefone na carteira e me devolva o mais rápido possível,

Grata,

Clara Cuevas


eu também vou reclamar:


"É a nuvem!"



***Enfim,depois do fim.O começo.

El sol de mis manos

Sucede que me canso de ser mujer.
Sucede que no quiero más los pájaros,
los cuervos, los soles, los sonetos
El cariño mórbido del dia a dia.

Sucede que mis lunes no sucedem.
Sucede que la sonrisa ya no quiere ser vista.
Solo el corazón pulsa, pero solo para si.
Y así siento que mi vida ya está lista.

Sucede que el camino está nublado,
y lo que veo son versos vacíos.
Y las flores que ya no coloren,
están marchitas de frío.

Esta es la juventud humana que vivo.
Lejos de ser la vida que soñé
Pero está en mis manos el camino
Para seguir el sol que tanto deseé.

Clara Cuevas


***** Perspectivas nubladas

É "La nube" do Fernando Solanas,
é a nuvem que tá sempre ali em cima rodeando,
é a nuvem que há décadas nos há levado sabe Deus pra onde!
é a nuvem que o vento traz e leva,
é a nuvem que deixa tudo escuro de repente,
é a nuvem que esconde um sol preciosíssimo,
é nuvem do céu que possivelmente nos espera.
Do céu que separa a terra que aqui existe e é nossa, pra um universo inteiro que almejamos sem conhecer.





***Medo do escuro, medo de cair pra cima, medo do infinito...
Báh! Tens medo de sonhar!? Se tens é culpa da nuvem, mas aproveite o vento que a leva e principalmente a chuva!




eu também vou reclamar:


"Silêncio"



Sou um estrangeiro neste mundo.

Sou um estrangeiro, e há na vida do estrangeiro uma solidão pesada e um isolamento doloroso.
Sou assim levado a pensar sempre numa pátria encantada que não conheço, e a sonhar com os sortilégios de uma terra
longínqua que nunca visitei.

Sou um estrangeiro para minha alma. Quando minha língua fala, meu ouvido estranha-lhe a voz.
Quando meu Eu interior ri ou chora, ou se entusiasma, ou treme, meu outro Eu estranha o que ouve e vê, e minha alma interroga minha alma. Mas permaneço desconhecido e oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio.

Sou um estrangeiro para o meu corpo. Todas as vezes que me olho num espelho, vejo no meu rosto algo que minha alma não sente, e percebo nos meus olhos algo que minhas profundezas não reconhecem.

[...]

Amas a Verdade, e a Beleza, e a Retidão. E eu, por tua causa, digo que é bom e decente amar essas coisas.
Mas, no meu coração rio-me de teu amor. Mas não gostaria que visses meu riso. Gostaria de rir sozinho.

Meu Amigo, tu és bom e cauteloso e sábio. Tu és perfeito e eu também, falo contigo sábia e cautelosamente. E, entretanto, sou louco. Porém mascaro minha loucura. Prefiro ser louco sozinho:

Meu Amigo, tu não és meu Amigo, mas como te farei compreender? Meu caminho não é o teu caminho.
Contudo juntos marchamos, de mãos dadas.

***Excertos de O louco e Temporais de Khalil Gibran


Agora Falando Sério

Chico Buarque

Agora falando sério
Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta
Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
E um tiro no sabiá
Dou um fora no violino
Faço a mala e corro
Pra não ver a banda passar

Agora falando sério
Eu queria não mentir
Não queria enganar
Driblar, ILUDIR
Tanto desencanto
E você que está me ouvindo
Quer saber o que está havendo
Com as flores do meu quintal?
O amor-perfeito, traindo
A sempre-viva, morrendo
E a rosa, cheirando mal

Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
E o síndico do meu prédio
Pedindo pra eu cantar

Agora falando sério
Eu queria não cantar
Falando sério

Agora falando sério
Preferia não falar
Falando sério



El silencio de la naturaleza-Celia Lacayo


[...]



Já fez silêncio hoje?





eu também vou reclamar:


"Eu, etiqueta"



Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu lençol, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências,
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou ¿ vê-lá ¿ anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares, festas, praias, piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar,
Cada vinco da roupa.
Sou gravado de forma universal,
Seio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo de outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.

Carlos Drumond de Andrade





***Bis, Drummond, Titãs, Punks...tudo envolto numa sensação de "estou sendo algo, e ainda não sei o quê".
Estou sendo aquilo que queres? O que queres? O que queres ser? O que és?
Eu só estou vendo um mundo vazio, aliás, cheio de poluição visual isso sim.
Mas é assim, encostou o dedo, fura, estoura, e só tem ar...

Ar artificial!
Ar condicionado e preso da Junta Comercial do Paraná!
Ar comprimido na ânsia dos estagiários mal pagos, dos funcionários públicos infelizes...
Ar que foi feito cuidadosamente em laboratório para um custo menor, uma melhor durabilidade, uma reciclagem...

Porra! Cadê o meu mundo? É isso daqui? Não foi isso que eu comprei!
Não! Eu não quero embalado! Não é pra viagem! Quero comer agora!

"Especial pra você" (o McDonalds tem a pachorra de colar um adesivinho desses na sua caixinha quando você pede um Bic Mac sem picles sabia?)

- Mas me diz é especial por quê? Moça, você não tá entendendo, eu só pedi sem picles!
- Eu entendo minha senhora, mas é que esse Big Mac tem mais veneno, entende?
- Mas eu só pedi sem picles!
- Mas daí vem mais agrotóxico no alface...
- Aahh...
- Pra compensar, entendeu?
- Aaahh...entendi...
- São dez reais!
- Então tá bom, obrigada!

E saio eu com um adesivo "Especial pra você" colado na testa.


Especial pra você = IDIOTA


***Isso não me aconteceu graças a Deus...



eu também vou reclamar:


"Bichos Escrotos"



Titãs

Bichos,
saiam dos lixos
Baratas,
me deixem ver suas patas
Ratos,
entrem nos sapatos
Do cidadão civilizado
Pulgas,
que habitam minhas rugas

Oncinha pintada,
Zebrinha listrada,
Coelhinho peludo,
Vão se foder!
Porque aqui na face da terra
Só bicho escroto é que vai ter!


Bichos escrotos, saiam dos esgotos
Bichos escrotos, venham enfeitar

Meu lar,
Meu jantar,
Meu nobre paladar




------

**Querem meu sangue!


eu também vou reclamar:


"Punga"



Querem comprar meu silêncio
Com promessas baratas
Pessoas mesquinhas
Com problemas menores
Com cabeças menores
Com valores menores
Querem ganhar minha fala

Querem roubar minha vez
Sem técnica nem prática
Sem teoria, sem didática
Querem que eu suma
Querem que eu aprenda
A ser apenas mais uma

Querem que eu finja
Querem que eu faça
Calhordas! Mantidos
Por porcos bandidos
Por falsas gravatas
De seda barata
Por luxo, por sede
Papel de ouro verde

Querem que eu cale
Na falta de votos
Na escassa vitória
Dos fracassados natos
Querem que eu me acostume
Com o escárnio do mundo
Com a invalidez dos cegos
Que não querem ver

Quero que morram todos
Um por um!
Enforcados na própria gravata
Sufocados pela moeda cretina
Comidos pelas baratas e
Pelas próprias doutrinas
Quero que sejam banidos
Pela piedade divina
Mas antes disso repudiados
Pelas justiças da vida.

Clara Cuevas/2003


William Gropper - Ladder of Success

***Não adianta! Vou ficar feliz quando este poema não fizer mais sentido, quando eu não precisar me contentar com estatísticas, quando eu não mais me sentir orgulhosa com a presença da mulher no mercado de trabalho, e quando tudo absolutamente tudo isso for desnecessário por que será algo como ligar a tevê, ir comprar pão ou ver gente passando na rua...


eu também vou reclamar:


"Só..."



"Fi-lo porque qui-lo."
Jânio Quadros



****Decida-se

Ninguém vai escolher por mim ou por você.
Seja a roupa, o corte de cabelo, a comida, o trabalho, o emprego, o salário, a briga, o amor, o caminho, a vida e a morte.
Se acostumo a deixar as responsabilidades para outro, logo o outro se acostuma a decidir por mim. Não brinco mais de bonecas e não sou boneca para ser manuseado. Se acendo um cigarro, assumo as conseqüências; se apago, faço por meus motivos. Dane-se o ministério da Saúde. Se acordo tarde é minha vida que se perde. Se comprometo seu tempo de vida, me mande à merda. Ninguém pena suas dores. Compaixão tem limites. Te ver sofrer me dói, e mesmo assim continuamos sendo eu e você. Se estou ao seu lado é pela conveniência da vida; se não se afasta de mim, a qualquer momento pode ser que isso seja exigido. Os mil projetos são as mil rugas em meu rosto no caixão. Cada uma delas revela a vida desperdiçada. Não faço planos, eu realizo. Não me perco em dúvidas, eu decido. Se as conseqüências forem terríveis, quem me garante que não seria pior ter ficado esperando. Poste iluminando a calçada vazia, isso eu não sou. Se escolho, escolho por ser o natural a ser feito. Ninguém me obriga. Se estou lendo o que está escrito, faço porque quero; e se você disser o contrário, dane-se.
Talvez você viva um ano mais, um mês, um dia, uma hora. No próximo exame será detectado um câncer galopante; na próxima esquina um babaca bêbado te pega. Ao tropeçar no vão da calçada o grande amor te apoiará; ao abrir a porta do elevador, será revelada a santidade de teu nome. Decida-se no momento que a dúvida se apresenta. Viva de acordo com o momento.

Esperar não amarra a apenas tua língua, imobiliza o universo e transforma tudo em nada: lago de água salobra onde já existe uma superpopulação de idiotas.

(texto retirado do folheto "Cornélio")


É um texto duro. Eu achei, mas verdadeiro, sincero, transparente. Enfim somos todos indivíduos de si.
E não importa o quão envolvidos, doentes e parentes nós somos. Somos sós. Só eu sei o que sinto.
O que fiz, o que falei, onde fui, só eu sei.

E isso é bom, apesar do gosto ruim da solidão.
Há um mundo inteiro a ser descoberto, por fora e por dentro.
Queremos viajar no espaço e esquecemos da terra maciça que vivemos.
Eu quero ajudar o mundo individualista e perverso ao mesmo tempo que esqueço que por dentro não sou muito diferente dele.

É meu irmão, eu não sou diferente de você e não me olhe assim...





***

Just do it



eu também vou reclamar:


"Suspiros"





...



***




***

E o que há de mais saboroso no mundo?


lar doce lar