por uma vida menos ordinária
eu também vou reclamar:


.

Curytiba: muito pinhão




Meus amores, quis trazer as fotos de um e-mail que recebi:

Nossa Curytiba nos anos 60. Quem diria!



Boca Maldita




Praça Tiradentes




Hospital das Clínicas




Praça Osório




Praça Rui Barbosa




Foi a boca maldita do Paulo Leminski que me comentou sobre a nossa vaga existência: o rolo compressor da mesquinha sobrevivência nos dias atuais .
Fazendo assim uma vida sem a mínima noção construímos cidades, famílias, instituições.

Mas Ferreira Gullar uma vez me disse assim:
"A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz".

Esse não é curitibano não, é maranhense e meus olhos debruçados sobre seus poemas brilham de amor e surpresa a cada letrinha como os olhos de quem lê Leminski ou Trevisan. Gosto de ler Curitiba, mas não esqueço do Nordeste, de São Paulo, de Minas. Do Brasil.

Brilham os olhos de quem vê a passagem do tempo sem ficar parado nele.
História: seus produtos e produtores.

o novo
não me choca mais
nada de novo
sob o sol

apenas o mesmo
ovo de sempre
choca o mesmo novo



Mas eu queria era falar de Curitiba. Curitibinha, essa província tão única. Completando os sete anos de namoro com ela, só amo cada vez mais essa cidade, não pelas suas obras e suas estruturas, mas pelos seus personagens, seus dias gelados, pelos seus loucos que de frios não têm nada.
No centro a gente vê sempre o mesmo mendigo com jeito de gênio da lâmpada e com seu cachimbo, a louca das boas verdades que sai gritando aí seus discurso de desobediência civil dando tiros invisíveis nos ônibus, os hippies uruguaios e argentinos. Nordestinos. Suas senhoras-curitibanas. Seus músicos. Seus pinhões.

8.

parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus

eu sou o seu profeta


.

Curitiba tem acima de tudo seus estrangeiros.
Toda essa gente que nasceu, veio, e se foi.


Essa vida é uma viagem. Pena eu estar só de passagem.



em negrito os poemas são do Paulo Leminski


Clara Cuevas



PS:
quatro dias sem te ver
e não mudaste nada

falta açúcar na limonada

me perdi da minha namorada

nadei nadei e não dei em nada

sempre o mesmo poeta de bosta
perdendo tempo com a humanidade




eu também vou reclamar:


.

confesso

eu não me preocupo em ser vil contigo, em varar a noite sem rumo, em dizer vem comigo, em ir contigo, em não fazer mais nada que não seja amor. eu não me importo e ser sutil contigo, profundamente sutil, dançar embaixo de ti, rir. eu não me importo em te ter por uma noite, ou duas, ou todas. eu te olho, eu te sorrio, eu já sou ti, cê só é mim, eu sou mais eu por que sou tu. eu quero ir pra longe contigo, quero ir pra perto. quero não ir pra lugar nenhum. qualquer coisa serve. quase qualquer coisa. qualquer coisinha incerta. quero transar contigo na minha liberdade. quero respirar teu amor puro. quero rir, fumar, rir. rir apaixonadamente. acariciar tua cachaça. beber dela. embebedar. bebê não. beber-te. assim no infinitivo. quero a mim, quero a ti. assim a sós nomas. infinito enquanto fingimos que vivemos. passar pela não-vida assim unicamente. eu não me preocupo em passar. desde que eu passe em ti todo meu porvenir. eu não me preocupo em ser assim contigo. assim. assim. tudo passa, meu lindo, tudo passa, até a uva no nosso vinho passa. não é a eternidade que me acende. é teu fogo. teu fogo louco. encheu meu ar de chispas. eres prova de que a luz produz calor, nasceste em mim assim: na Clara.


Clara Cuevas

eu também vou reclamar:


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O mundo



Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir ao céus.

Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

- O mundo é isso - revelou. - Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.


Eduardo Galeano



Pedro Charters - Gente 2



eu também vou reclamar:


"A humanidade perdeu os valores!"



(Hobbes tem razão)

- Sua besta, ela nunca os teve.


Eu descobri que não tem coisa pior do que a raça humana. Nem tô falando dos estupros e assassinatos, digo do nosso especismo em si.
E até me desintegrar em pequenos pedaços de carbono novamente, nada me resta além de conviver com isso. Sou humana, apesar de monstra.
Não tem nada mais especista do que um ser humano, mais covarde, mais sujo, mais antinatural.
O pansexual; imagine você, uma cabrita, sendo comida por um ser horroroso, com um pinto minúsculo, sem nenhuma garra, pêlo ou força animal.
Chamo o homem de antinatural porque ele é único que trocou sua natureza por seu mundo inventado. Ele construiu e vive este mundo. A natureza em si não tem espaço nele. O homem é o único que mente. Quem dera, ainda bem é o único que fala. E vem gente me falar de caráter!
Convivendo com humanos todos os dias, comendo carne bovina, suína e vendo o documentário " Terráqueos" só consigo me enojar da minha espécie.
Gente especista da porra! Para os animais nada resta: ou são amados pelos humanos a ponto de serem comidos por eles, ou se tornam o mundo "underground" do planeta, e se não importa pra nós, que se foda!
Esse é mais do que um protesto de "salvem as baleias!" é um vômito. Posso virar preta, branca, homem, loira mas nada me tira a condição de humana e algo que contradiza isso é pura ilusão. E não, não sou emo o suficiente pra me matar.
Talvez este seja o famoso pecado original.


Olhe ao redor. Só olhe.


Agora pode vomitar.





"Uma ida ao manicômio mostra que a fé não prova nada".
Nietzsche


Clara Cuevas



eu também vou reclamar:


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SEGREDO

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.





Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.


Carlos Drummond de Andrade


Eu olho ao redor. Me pergunto. Me rio. Te penso.
Os anjos, as dores, os sacrifícios...
A gente se afoga, se molha, mas nada ainda.

A gente se foge mas se diverte correndo atrás do rabo.


Clara Cuevas



lar doce lar