por uma vida menos ordinária
eu também vou reclamar:


E A NATUREZA CONTRA-ATACA:





Clara Cuevas


eu também vou reclamar:


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*amar e mudar as coisas me interessa mais

foi na brasa do amor que nasci, que me jogaram, já no fogo da paixão, no sol me queimaram, aliás na primeira noite se amaram, se amam sempre , todos reparam, os anões não falam muito já que passam a maior parte trabalhando nas minas mas quando param pro café comentam: que grande casal! já houve noites de sangue, de saliva e de muito suor, gozo mútuo, mini nirvana, mil risadas, quase lágrimas mas nunca chuva, incrível como não choveu nenhum dia este mês, tudo sonho, num dos sonhos passeou pela piscina colorida, azul, branca, transparente, psicodélica, na verdade era um rio que passava dentro de um túnel, um museu que de passado não tinha nada, muita luz, dei a volta pra pular na calçada normal e entrar nele, todos pisavam ali mas só os que queriam conseguiam entrar na piscina-museu, que piscina! que museu! vocês não acreditam que dia nublado estava lá em cima quando dei a volta, um pulinho na calçada de sempre e puff, já estava mergulhando na piscina-museu, haviam os que pagavam pra entrar, os que não sabiam querer mas que pagavam pra conhecer e esses tinham uma piscina a parte que eu via muito bem, toda colorida também, mas não era a nossa e não tinham a alegria de saltitar pra dentro da água do museu de um sonho, o João Pestana foi muito legal comigo aquela noite, aquela outra também, a noite do fogo do cigarro e a de ontem também, que eu dormi e babei no teu colo e não sonhei nada, todo dia é um grande sonho, vou longe e me esqueço, não por medo de lembrar mas é que eu me perco e fico por lá, longe, sozinha ou contigo e existindo nem preciso dizer que amo, por que de amor sou feita, e de amor são feitos os meus sonhos, os meus planos, os meus amigos, as minhas mãos, os meus porquês, por que o amor pra mim é comida, é alimento, e tem milhões de pessoas no mundo sem ter o que comer, é por isso que eu, que tenho muito amor, amo muito e sempre e com gosto e é exatamente pelo mesmo motivo que não deixo comida no prato nunca: só pego aquilo que for comer.

Clara Cuevas

*Belchior / Alucinação

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eu também vou reclamar:


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conversa rápida


(17:55:45) Yesha'yahu: pense nisso
(17:56:00) Clara: em quê?
(17:56:14) Yesha'yahu: a época de maior efervercencia cultura no mundo recentemente foi a década de 60
(17:56:27) Yesha'yahu: os anos de 68 e 69 especialmente
(17:56:38) Yesha'yahu: a psicodelia especialmente
(17:56:52) Yesha'yahu: no calendario judaico esse é o ano 68
(17:56:54) Yesha'yahu: tá
(17:56:59) Yesha'yahu: do século 58
(17:57:02) Yesha'yahu: 5768
(17:57:20) Yesha'yahu: com um amigo hj, depois da sinagoga
(17:57:51) Yesha'yahu: meus meninos no colegio, a professora pergunta: "seu pai é o q?"
(17:58:16) Yesha'yahu: as crianças dizem: advogado, medico, professor, carpinteiro, isso, aquilo, aquele outro
(17:58:21) Yesha'yahu: aí chega os meus
(17:58:35) Yesha'yahu: "meu pai é psicodélico"
(17:58:43) Yesha'yahu: ou "meu pai é hippie"
(17:59:12) Yesha'yahu: outra q tive de aguentar, por conta do cabelo, hj
(17:59:37) Yesha'yahu: qual será a reação dos meninos ao verem um crucifixo pela primeira vez?
(18:00:00) Yesha'yahu: "buáááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááá... pq fizeram isso com o papai!"
(18:00:11) Yesha'yahu: ah
(18:00:30) Yesha'yahu: to cansado e meio grogue de tanto andar, fora o sol na cabeça, aí ñ to falando coisa com coisa
(18:00:39) Clara: hauhnekhuiahahiuahihauhjhneheuhehe



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eu também vou reclamar:


PULP F I C T I O N




- Ci, primeiramente você deve se acostumar com a idéia de que eu não faço a mínima questão de te surpreender, não porque eu queira te decepcionar de propósito, é que isso tudo não tem o mínimo sentido pra mim mesmo. Pior que isso, o torto, o feio, a voz dos excluídos, sempre foram o meu forte. O meu encantamento. Torta sim - dizem. Eu me queimo mas gosto, é meu charme, amado, é meu charme...

(acende um cigarro)

Quer um cigarro?

- Não, obrigado

- Então, eu já fiquei com tanto cara idiota... se você soubesse... mais idiota que eles só eu mesma... eu vou ser sincera com você, meu braços abertos não são pernas abertas e nem puro o meu escarro e nem meu beijo. Meu piores pensamentos saem assim, no fulgor do encantamento da beleza da vida, na fumaça, nas tempestades, veneno, orkuticidou-se. Pobre. Pobre nada, tinha dinheiro. E quem tem dinheiro tem tudo nesse ocidente cariado velho de guerras. Por isso eu prefiro ser livre e não ter nada, ser oriental, índia, negra, tá me entendendo? Entendeu o lance do torto, feio e errado? Não preciso te dizer que o ocidente excluidente é chato demais pra mim né, e que em tempos de violência como o nosso não há nada melhor que um bom refrigerante de pomelo. Um refrigerante de pomelo paraguaio bem gelado... Ah sim...

(pausa para soprar a fumaça)

Adoro. E adoro você também que vê isso daqui sem entender nada... adoro todo o mundo... que mentira... mas ai, vocês aí esperando uma grande sacada minha ou um novo desastre literário, quase ecológico ou o nada politicamente correto de sempre. Aliás, como vai sua vida, meu caro? Muito cara? Que horas são? Já viu a aflição que dá olhar fixamente pra um relógio durante uns cinco minutos? Olhe sempre mas é melhor não olhar e só cumpra aquilo que puder cuspir e antes de cuspir levante-se. Se o objeto mais próximo for o prato que comeu, cuspa sim mas lave-o e deixe lá pra algum babaca pegar e comer nele, ria dele, sim, ria do babaca, do babaca não tão babaca já que o prato foi limpo por um babaca maior que ele. Mas se divirta com seus pensamentos. Você mesmo, que nunca viu um pomelo... sabe o que é um pomelo? Você já foi preso? COMO IMAGINA UM POMELO? É casado? Quer ir pro céu? Já viu deus? Já se vendeus? Dirige? Viagra? É como diz o Edu: É funcional, pra mim que faço questão de regar as plantas que eu mesma acabei de matar. Mas eu não mato plantas. Mato bichos pequenos por não ver eles,

(bate as cinzas)

mas quando vejo, desvio, não gosto de matar bichos não, mas plantas eu como, é verdade. Eu não sei escrever mas eu escrevo. Escrevo pra gente que não sabe ler, como eu. E como diz ele mesmo: Depois? Depois não haverá mais grandes astros. Me refiro a mim. E enquanto isso? Eu espero se levantarem.

(pausa)

E então irei procurar o primeiro que se levantou.


O problema é que sou quem se levanta primeiro... Mas Ci, eu não gosto de falar muito de mim, sabe como é, em geral sou tímida, introvertida e muito humilde... mas diga-me quais são seus sonhos? Comeu algum hoje? Ou vendeu? Quer um cigarro?

- Não, obrigado.

- Porra, pega um cigarro, fala alguma coisa!

- Querida, eu sou o seu cigarro.

- Tá certo... agora vão dizer que eu tava falando sozinha de novo!


(contrariada, amassa o filtro no cinzeiro e pede uma Pulp)




Uma não, duas.


Clara Cuevas


eu também vou reclamar:


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ser índio.

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lar doce lar