por uma vida menos ordinária
eu também vou reclamar:


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when I'm good I'm good but when I'm bad I'm better

O ônibus não estava lá essas coisas cheio, mas eu fui em pé mesmo, fiquei olhando pros poemas, pra janela, mas ele encheu e eu olhei aqueles olhos famintos por um lugar pra sentar, cruzes, quase facas e machados na mão, gente correndo, lotando tudo, quando um lugar fica vago ele logo não fica vago novamente, realmente pessoas são realmente estranhas. Bancos preferenciais para pessoas idosas, gestantes, deficientes ou obesas. Sabe quais? Aqueles que você vai usar um dia quando ficar grávida, velho, gordo ou doente. Bela coisa é que nunca senta, se senta já leva uma encarada de todo o mundo: rapaz, chama aquela senhora ali pra sentar. Levantei mas não rosnei. Maldito... senhora, que senhora? Há, ele vai levar uma invertida, aquela mulher nem é lá senhora, nem gorda, logo não-grávida, gata demais pra ser deficiente física. Mental eu já não sei. Somos todos até... né. Olhei pro meu sorriso refletido na janela, sorri mais. Mas a placa é pros físicos... é ... pros deficientes físicos, se penso demais em problemas mentais começo a ter medo de todo o mundo. Gente de todo o tipo já passou por mim. Mas aqui é um ônibus apenas, pessoas seguras, mudas, que não se olham no olho, estranhos, clima de elevador, mas se você, jovem normal, se sentar você será recriminado por todos os olhos. Maldito, me fez levantar, eu tenho que estar feliz por não ser gordo e nem doente, e nem velho morrendo, é um hábito da minha família, agradecer assim a jesus por ser assim do jeito que sou, ser inteiro e íntegro e bonito, saudável, agradecer e sentir pena são hábitos que temos por sermos cristãos, dizia mamãe, lembrei disso, então levantar não é lá algo ruim assim, é isso mesmo, gratidão e caridade. Mas aquele cara vai se foder, a mulher vai se sentir ofendida e se sentiu mesmo, quem mandou não me deixar sentar, filho da puta. O ônibus fica cheio e o lugar vago até que um aleatório se senta, nem velho, nem jovem, nem belo. Um ser, desses que cruzam pela gente todo o dia. Meio sem rosto. Sem perspectiva. Fiquei olhando. O aleatório maldito não incomodou o outro aleatório comum, me encheu porque sou jovem, isso sim, porque sou jovem e bonito... e sei. Eu desci puto do ônibus mas meu brio estava feliz. No final das contas sou um bom garoto... é... e quando homem serei melhor. Tolos, os feios brigam pelo banco que têm, um banco todo especial que têm pra si mas eu terei todos os outros bancos. Sorri o meu melhor sorriso do dia, vou até escrever, pensei, sorri de novo, contei e escrevi.

Clara Cuevas

*baseado na sexta-feira comum com ônibus normal do Cauê


eu também vou reclamar:


- Política! Política! Como se a arte fosse menos importante!






Fechando seu baú com força e acompanhado (expulso) pelos auxiliares de palco, saiu extremamente emputecido, gritando essas palavras com toda fúria por culpa do escárnio mundial, câncer generalizado explícito num pequeno hematoma ali em sua frente.
De fato, o mundo se preocupa demais com seu aspecto institucional, com sua revolução contra instituição/pró-outra-instituição.
No fórum social do Mercosul, como bom fórum (já que estamos na era da valorização “cultural”) fizeram diversas apresentações de grupos folclóricos de todas as partes, de índios a negros.
A peça de Carlos continha uma temática interessante, era apenas ele, vestido de conquistador contando a história da invasão espanhola da América Latina. Com seus bonecos fazia piadas e explicava a história de uma forma muito interessante, desde a exploração negra até o grande amor de uma nativa com um conquistador.
A peça começou antes do intervalo e tinha um tempo já pré-determinado para acabar. Carlos a fazia tranqüilamente quando de repente viu auxiliares e produtores do evento fazendo sinais com as mãos pra ele parar com a peça já que por culpa de má administração interna a peça começou atrasada e tinha que terminar logo, já que políticos importantes estavam aguardando para entrar com suas respectivas peças: o debate sobre o Fundo Monetário Internacional.
Eu percebi desde o início a provocação, mas Carlos, como bom ator, não deu bola e continuou sua peça até que uma hora já não agüentou tantos sinais e perturbações. Jogou no chão seu chapéu e gritou:
- Eu só vou parar em respeito aos meus espectadores que não podem assistir uma peça com tanto incômodo assim. A cultura é importante pra vocês? A CULTURA É REALMENTE IMPORTANTE PRA VOCÊS? Política! Política! Como se a arte fosse menos importante. Eu me retiro... me recuso a ficar no mesmo ambiente que vocês.
E o Carlos foi embora mesmo e eu e mais um grupinho de paraguaios tomando tereré aplaudimos de pé essa atitude tão explícita, esse grito que nós todos meio artistas meio anarquistas temos aqui na garganta. O simples fato de dar importância pra algo tão simples e tão importante.
A palestra sobre o FMI me interessava mas eu já estava cansada por ter passado o dia todo no fórum e entretida com a peça do Carlos que foi interrompida injustamente. A arte é assim, geralmente interrompida, atropelada por algo que o mundo precisa, por algo mais importante pro mundo.
Essa revolta fez a gente aplaudir o Carlos de pé e vaiar os integrantes intelectuais que entraram. Estes integrantes realmente preocupados com as coisas importantes do mundo, com a exploração verdadeira da América Latina, com a intromissão sem justa causa do FMI, com a perturbação estrangeira.

Ficar e ouvir as informações estratégicas sobre a exploração mundial ou ir pra casa e mostrar pra esse povo como a arte é tão importante quanto a política?
Confesso que fiquei na dúvida. Anarquismo libertário ou socialismo institucional? Adivinhem, pois é, eu saí sim, saí porque achei uma falta de respeito com o Carlos, comigo e com todo o mundo que estava hipnotizado por essa coisinha tão pequena e sensacional chamada arte, chamada teatro, dança, música, pintura. Saí pra dar apoio ao Carlos, cara competente que fez o que devia ser feito, saí pra dar as costas pra essa hipocrisia lírica aí, ainda que esquerdista, ainda que pseudo-democrática. Saí porque precisava mostrar que a peça era uma simples peça que precisava ser mostrada, assim como as tentativas de derrubar o FMI. Saí e duas dúzias de gatos pingados saíram comigo. E assim, neste pequeno ato abalamos o pedantismo intelectual presente e diminuímos a tentativa de mostrar a transferência ridícula de poder como solução e forma de democracia. ARTE PRA CIMA!
Sem jeito, pegou o microfone um aleatório importante e começou a falar.
Na saída conheci o representante do movimento GLS de Curitiba, um senhor de bigode, orgulhoso de sua bandeira colorida colocada no ombro, contente me disse que suas filhas têm orgulho dele e que uma até deu entrevista na G Magazine dizendo que "o pai dela é o melhor pai do mundo", um senhor que ia pra casa forte com sua causa desimportante, estava farto de blá blá blá, também estava

farto do lirismo que não é libertação.



Clara Cuevas



eu também vou reclamar:


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5ª Fiesta Latinoamericana - Curitiba



12/10 Parque São Cristovão - Santa Felicidade, a las 10:00

Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colombia, Paraguay, Uruguay, Mexico, Bolívia, Perú, Cuba, Ecuador, República Dominicana y mucho más!

Comidas, músicas, bailes folclóricos, vení nomááá!

Con mucho cariño, te esperamos!

Comunidade do evento:
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=40028971





só acredito num deus que saiba dançar.

Nietzsche



eu também vou reclamar:


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então eu vou te dizer, pessoas são estranhas mesmo...

esses dias mesmo uma menina veio me reclamar que seu namorado está sendo cantado pela ex dele, mas ela muito madura não liga, apesar de querer quebrar a cara dela, o outro foi trocado pela décima vez, trocado pelos amigos, isto é a guria fica com ele e depois com algum amigo dele, e ele super confortável, não liga, o outro namora há anos e trai a mulher, ela é linda, eles se amam e vivem em pleno amor e sinceridade mas ele trai ela e ela não pode nem saber, se ela também faz eu nem sei mas só estou comentando, o outro come uma come duas e não segura nenhuma, ama todas e nenhuma liga apesar de uma me ligar puta perguntando dele, o outro vem pra cá e finge que não escutou as coisas que eu disse, o outro inventa um amor que eu nunca disse, o outro sustenta um que eu nunca farei, o outro finge não ser mais meu amigo como se a amizade fosse algo além da opção, e o amor o que é? e a fidelidade? gente, quanta transparência, quanta mágoa revestida em bons costumes e maturidade, tolerância, isso é a cidade? fico feliz em ser torta por saber das tortisses dos outros, mas não conto nada, não sei matemática e minha lógica nunca bate com a lógica universal, óbvia, reprovei em concurso e em vestibular, mas sei guardar segredo sei sim, é que nunca me pediram pra comprovar mesmo por que não tem como, mas guardei grandes segredos de gente que aborta, de que traiu mas ama, jura que ama e ama sim, que vende e se vende, se dá? olha eu aqui como se nunca tivesse amado e como se estivesse amando pela última vez, olhe você mesmo, não sei se já vestiu a carapuça mas ia ser melhor tirar a carapuça, a calça, a blusa, não pense que eu estou nua, não tirei nada mas alguns ladrões estes sim, roubaram minhas máscaras e eu um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.

E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.
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O homem convive sempre muito desconfortavelmente com suas mentiras, irmãos, vamos abrir os olhos pro vão da nossa intimidade, vamos machucar, olhar pra dentro, mexer na ferida, abrir os pontos, não sei quanto mede o abismo que criamos entre aquilo que somos e aquilo que fazemos, que temos que fazer, que medo de que bicho é esse dentro eu não sei, se devora ou pede carinho, se prefere correr ou se fica sozinho, só sei que não é só isso, isso que me diz você com uma cara normal e paciente, eu intolero, você também fica louco consigo, eu sei. Sempre tem um euzinho pedindo pra ser desenganado. A verdade guarda o abrigo e a tempestade.


* de "O louco" de Khalil Gibran


Clara Cuevas


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