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eu também vou reclamar:
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Terça-feira, Dezembro 25, 2007
by Clara Cuevas
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dois amantes
Chegaram no bar:
- Garçom, me vê duas tequilas!
Viraram porcamente os dois chotes. Primeiro ele, depois ela. Calor subindo na garganta.
É óbvio que o estômago dela quase arrebentou e ele muito macho segurou firme.
Queda de braço, uma hesitação, um sorriso, um carinho, relaxou, perdeu.
Depois que ela ganhou dele na queda de braço (por que ele deixou) deu uns dois tapas nas costas dele e falou:
- Por que na Rússia é a Sandy que come você!
Riram, amando-se.
Clara Cuevas
eu também vou reclamar:
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Domingo, Dezembro 09, 2007
by Clara Cuevas
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- pós-tudo, mano
Toda geração tem seu sonhadores sonhares, aqueles pesares tão reais de dia que a gente tem certeza que nasceu pra mudar o mundo e acorda com sede de Vingança e de Vendeta e que sabe que os pesadelos são todos naturais, que são verdadeiros obstáculos da oposição para testar nossa maravilhosa vontade indomável. Sim, nós somos os escolhidos.
Toda geração nasce com seus diabinhos de merdas, seus piás de bosta, seus piás de prédio, seus casais sem sal e tão feios - eu vi um hoje no ônibus, gente, o namorado gay e a namorada cega, claro - seus gordos de meia tijela, grandes empresários, grandes catástrofes, suas grandes merdas, grandes percalços, grandes corações de gente sem uma ou duas pernas, de cor preta azul ou amarela, gente com o coração bom que vê um negrinho em Copacabana e se compadece, dá um sanduíche, dá um chinelo, um carinho, uma atenção:
- Ô menino, vem pegar esse trocado aqui.
Ele olhou pro pretinho, abriu a janela, abriu o sinal, perdeu o relógio, levou um tiro, perdeu a vida, e o mundo perdeu mais uma consciência social.
Dias depois em qualquer boteco de qualquer faculdade:
- Não é preconceito, é estatística, as chances de ser negro o bandido que vai atirar em você são de mais de 70% pessoal, é sério, saiu na Veja, é verdade.
- Não, não, não, você está sendo racista e preconceituoso, os negros da favela não têm o que comer, fome não é falta de caráter, mas a necessidade faz o ladrão e...
(segue discussão ridícula, fatídica e muito comum)
Dias e noites com conversas fiadas de gente que acha que acha, que tem as janelas fechadas, portas trancadas, gente que nem pra dizer não pro neguinho malabarista que pede um trocado faminto, gente que faz cara de nada de grande filho da puta surdo e acelera quando o sinal abre, gente que faz campanha de Free Hugs no Leblon, gente que acredita em alguma ligação justa com burguesia e povão, gente que acha que existe equilíbrio, um meio termo, uma linha comum entre nós todos sereses humanoses, comunes, gente que acha que existe um padrão e o que não é padrão é esquerda, é canhoto, é deficiente, gay, estrangeiro, afrodescendente, mulher, apenas diferenti pessuáu.
Minha geração pós-tudo tem a pretensão como todas as outras gerações de ser a geração que está no caminho certo - apesar de toda catátrofe catalogada nas matas, favelas e litorais - de ser a revolução do passado, e todos nós institucionais, lutamos por um mundo melhor com menos diferenças sociais para as nossas crianças oito maneiras de mudar o mundo acredite você pode mas você fode com o mundo e o mundo só mudou para pior e tudo vai piorar e pessoas são repugnantes por natureza na maioria do tempo, em geral quando não estão cantando, dançando ou fazendo amor com a gente. O mundo só fica lindo às vezes por causa da mescalina diária de nossa célula familiar e nosso pãozinho de cada dia e nosso sorriso gratuito pro sol, pra mamãe, pro papai, e por nosso instinto de viver bom dia obrigado amo você amém.
Você nasceu na pior espécie e os piores dos piores são esses pessimistas ridículos que insistem em fazer sua parte surrando a maré sem se vender, que não negociam, estes são os putos chamados de radicais, radicais sem meio termo, chatos que dizem NO!. Radicais livres. Ovelha negras da sociedade hipócrita, cegos pela ideologia que vestem e assumem. Pessimismo realista: Negras si, ovejas jamás.
and merry christmas, gente!
Clara Cuevas
eu também vou reclamar:
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Segunda-feira, Dezembro 03, 2007
by Clara Cuevas
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de quando me desfraguei
Meu pai não me viu quando me viu, não era eu ali, aquela matéria sem função, na frente dele, aquela coisa que estava mas não estava ali, aquele choro travestido em dentes lindos, eu tinha ficado lá, eu tinha ficado lá com ela, eu tinha me tornado ela e cada quilômetro distante era eu sem mim dividido por mim e ela, e a outra parte dela e a minha e toda parte despedaçada e espalhada pela rota. Planalto, planície, planícia, planaltos eram aqueles lábios beijando meu pescoço, marcando o território que antes de ser espaço ja era dela, e eu ali naquele terreno meio receoso e totalmente entregue estava com medo. Me perdi. Quando cheguei aqui não tinha chegado porque na verdade nunca tinha saído de Brasília e meu pai jamais entenderia. Este não sou eu, papai nunca entenderia - apesar de saber que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço (teoria que já tínhamos derrubado na noite anterior junto com a cama dos pais dela) - ele nunca entenderia que um corpo pode não estar em lugar nenhum. Expirei-me, papai, existiu-me, ela me espalhou. Fragmento, eu era de algo que não poderia ser descrito, nem notado, só sentido ao ver o sorriso dela me perguntando se eu a amava e eu falei tímido que sim, porque todo pedaço é tímido, só os inteiros são presunçosos e dizem não e eu como pedacinho de nada que era só dizia sim sim sim, com um sorriso que era tímido por não ser o sorriso dela. O que não era ela, era nada. Quando decolei pensei em ter visto as mais belas nuvens desse céu brasileiro e teria visto mesmo, se aquele garoto no avião fosse eu. Escrevo em primeira pessoa, mas na verdade sou a segunda, a terceira, a vigésima, depois de deixar toda aquela beleza, de virar um doce qualquer de padaria recheado de saudade e tanta inconformação me restou observar as despedidas no aeroporto quando cheguei em Porto: lágrimas e pedaços tão suspirosos de nós, vós, eles e elas.
Clara Cuevas
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