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eu também vou reclamar:
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Sexta-feira, Março 14, 2008
by Clara Cuevas
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Naquela época minha mãe gritava direto, e gritava e gritava e gritava por tudo e com todos.
Gritou correndo atrás do meu pai várias vezes. E sempre empurrando o carrinho comigo, eu preocupado,
ela gritando, assustando meu irmãozinho, Pedro.
Uma vez meu pai virou a esquina fugindo dos gritos dela e ela saiu correndo atrás dele, aos gritos com o carrinho,
xingando deus e o mundo mas meu pai só tinha virado a esquina pra se esconder, fazer surpresa e gracinha pro meu
irmãozinho, Pedro. O Pedrinho também se assustava todos os dias com o Maleco, um cara que cuidava de carros e vivia
na mesma calçada que nós, ele vinha correndo pro nosso canto, com um saco de mercado cheio com restos de comida.
Pegava tudo com a mão e botava com fome na boca, a fome que amedrontava o Maleco ia embora.
Mas o Pedrinho não entendia nada. O jeito voraz do Maleco sempre deixava o Pedrinho assustado.
Na verdade tudo assustava o Pedrinho, é claro. O susto vinha com a descoberta repentina das coisas do mundo,
com a surpresa de tudo.
No meio do centro é natural que o que menos se encontre seja a paz de espírito e o silêncio. Nos semáforos tudo o
que o Pedrinho podia aprender era barulho. Era cinza, sujo, nocivo.
Numa tarde qualquer, minha mãe saiu gritando atrás de um senhor que pegou as balas da mão do Pedrinho e não pagou.
O Pedrinho ficou parado entre os carros assustado com as mãos abertas, observando os movimentos da minha mãe.
Eu estava no final da quadra pegando o trocado do último carro.
O semáforo abriu. Eu gritei pro Pedrinho. Minha mãe parou.
- Mãe, sumiu!
Eu só podia imaginar a cara de susto do Pedrinho quando viu aquele carro enorme indo pra cima dele.
Minha mãe só retomou a voz quando viu o corpo do Pedrinho estirado no chão. Mas mesmo assim o centro não parou,
nem o semáforo, nem nada. Uma multidão de curiosos ficou ao redor do Pedrinho pasmos com cara de assustados.
Ainda bem que o Pedrinho não viu isso, nunca entenderia a própria morte. Se assustaria se visse o próprio corpo jogado ali.
Daquele dia em diante eu me surpreendi menos com as coisas e entendi o desentendimento do Pedrinho sobre o mundo.
Nada nem ninguém fazia o mínimo sentido. Entender pra quê?
Com a chegada do Jonathan, meu segundo irmão, minha mãe continuou gritando. Meu pai fugindo. E eu trabalhando,
mas agora tinha uma nova profissão, não vendia mais balas. Aposto que o Pedrinho não ia entender (pra variar) como eu fazia
aquelas coisas, mas com certeza iria gostar. Agora eu era malabares.
Clara Cuevas
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eu também vou reclamar:
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Sábado, Março 01, 2008
by Clara Cuevas
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BUKOWSKI
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